terça-feira, 17 de março de 2026

Os passageiros habitués

Há cinco anos mudei de emprego e voltei a utilizar os transportes públicos, coisa que já não fazia desde os tempos de estudante e que sempre me agradou.

Apesar dos 50 km que me separam do trabalho, a hora e três quartos que gasto nos transportes é sempre muito bem passada, proporcionando-me prazeres impossíveis de obter quando vou de carro. Um deles está na observação dos passageiros, que é sempre uma distracção bastante interessante. Há os passageiros passageiros, como o nome indica, mas há também os habitués. E destes, há aqueles que fazem um trajeto tão grande como o meu e até aqueles que já lá estão quando entro e continuam quando saio. Com estes passageiros, os habitués, já há uma espécie de relacionamento. Se estão alguns dias sem aparecer, já estranho e indago sobre o que lhes terá acontecido. A proximidade atinge um nível tal que, não conhecendo os seus nomes, para agilizar as minhas linhas de pensamento, acabo por lhes atribuir alcunhas.

A Tucha, por exemplo, foi uma passageira que me acompanhou durante cerca de dois anos. Apanhava o comboio uma estação depois de mim e a seguir o metro. Lembram-se da boneca? Era mais ou menos como ela, mas em loira. Vestia calças e botas de salto alto, com um casaco abotoado e apertado com um cinto. Entrava sempre na primeira porta da primeira carruagem do metro. Como era alta, geralmente sobressaía no meio da multidão. Até que um dia deixei de a ver por aquelas paragens.

O Morcão, conheci logo no início e ainda o vejo de vez em quando. Nessa altura, apanhava o autocarro a meio da minha viagem e era aí que o encontrava. Quando a Covid acabou, o trânsito piorou bastante e andar de autocarro deixou de ser para mim uma opção. Apesar de lhe ter falado por duas ou três vezes, no tempo em que ainda não percebia nada de transportes, ele sempre me ignorou nas vezes seguintes. Trabalha muito perto de mim e por vezes vejo-o à hora do almoço no supermercado, mas já desisti de o cumprimentar.

Outros quatro apanham o comboio em estações próximas daquela de que me sirvo. Um, deixei de ver há cerca de dois anos. Deve ter-se reformado. Outro, que anda nestas lides há menos tempo, daqueles que fazem um percurso ainda maior do que o meu, é o James Bond. Vai sempre de fatinho e mala de executivo. No verão não tira os óculos escuros nem no comboio nem no metro. E gosta de viajar em pé. Já o aviador, porque presumo que trabalhe numa empresa ligada aos transportes aéreos, entra e sai precisamente nas mesmas estações do que eu. Só não faz os 3,5 km que ainda faço depois disso de bicicleta.

Só falta o professor Astromar, companheiro de longa data. Quem viu a telenovela Roque Santeiro sabe a quem o estou a associar. É muito parecido. É talvez o meu companheiro mais antigo. Do tempo do Morcão e do Reformado. Tem uma forma muito peculiar de caminhar. Um passo dele equivale a dois meus, e dá-os de uma maneira muito científica, pois vai descrevendo com a bacia e todo o corpo que esta sustenta, uma sinusoide perfeita. Parecendo que vai devagar atinge desta forma velocidades surpreendentes, conseguindo apanhar o transporte seguinte nas correspondências, sem que eu o consiga fazer se não desatar a correr.

Mas a personagem mais intrigante, que descobri há cerca de quatro anos, nem sequer é um viajante. Pelo menos nunca o vi dentro de uma composição. Vejo-o sempre à mesma hora, no mesmo banco da mesma estação de metro, a ler o mesmo jornal. Quer dizer, presumo que o vá atualizando. Não está a olhar para quem sai nem para quem entra. Apenas dirige os olhos para o jornal através dos mesmos óculos, apoiados no nariz que encima o seu farto bigode, nem mais curto nem mais comprido do que sempre. Já tive ganas de me sentar ao seu lado só para ver o que aconteceria. Se vai esperar alguém, vai com muita antecedência. Pode estar a aquecer-se se for inverno ou a refrescar-se se for verão, mas nesse caso o que faz ele ali na meia estação? Seria óbvio de mais se fosse um espião. A espiar o quê ali durante tanto tempo? Por isso não lhe chamei Espião. Preferi alcunhá-lo de Ferroviário. Assenta-lhe como uma luva.

Estamos todos fartos de nos conhecer. Talvez também eles inventem alcunhas para os demais. Gostava de saber se tenho alguma. Mas parece haver um pacto de não aproximação entre nós. Nenhum de nós entabula conversa com o outro. Talvez, como eu, nenhum queira ficar preso ao outro. Que seria ter de cumprimentar o professor Astromar sempre que o visse.  Sentar-me ao seu lado para irmos a conversar e deixar de observar o Ferroviário ou o James Bond? Ou de ir a ouvir música ou um podcast, ou de ler um livro ou um jornal, ou simplesmente de deitar o olho a uma Tucha? Há lá coisa melhor do que andar de transportes públicos?

sexta-feira, 13 de março de 2026

O Sr. Manuel

O Sr. Manuel está reformado. Conheço-o há alguns anos, da oficina onde costumo pôr o carro a arranjar. Encontro-o por lá muitas das vezes que lá vou. Melhor dizendo: encontro-o já por lá, pois creio nunca lá ter chegado antes do Sr. Manuel. E costumo chegar bem cedo. Dá-me a sensação de que o Sr. Manuel chega lá ainda antes do cacarejar dos galos daquelas redondezas. Por vezes não vejo logo o Sr. Manuel, mas fico a saber que ele já lá está pela cara do Sr. Paulo, que é o dono da oficina, que já conheço há mais de vinte anos. Quando o Sr. Paulo está com aquela cara de pescoço retorcido olhando para mim de lado e a dizer de si para si aquele palavrão que se aplica a quase tudo, já sei que o Sr. Manuel lá está. E quando lhe pergunto: Então Sr. Paulo...? e ele me responde. Foda-se! fico com a certeza.

O Sr. Manuel é daqueles que marca a revisão do seu Opel Astra de 2001, irrepreensivelmente estimado, com duas semanas de antecedência. E, dia após dia, vai lembrando a mulher: Maria, no dia tal vou ter que ir à revisão! E à medida que o dia se vai aproximando a inquietação vai tomando conta de si e, por osmose, também da Dª. Maria. É por isso que no dia da revisão, o Sr. Manuel às 5 da manhã já está de barba feita à espera de poder finalmente cumprir tão almejada tarefa.

Mas o que irrita o Sr. Paulo não é tanto o facto do Sr. Manuel se apresentar tão cedo mas sim o de não arredar pé enquanto o seu automóvel (que é assim que o Sr. Manuel designa o carro) não estiver pronto. Inspeccionando o trabalho; querendo saber se ainda falta muito; não permitindo ao mecânico qualquer atalho para despachar o serviço. Ou seja, garantindo que tudo vai ser feito com a máxima perfeição, ao mesmo tempo que, na hora da apresentação da fatura, tudo possa estar rigorosamente em conformidade.

O carro do Sr. Manuel, é aquele tipo de carro que quando estiver à venda no Olx, é uma lotaria para o comprador. Geralmente não estão a pedir muito por ele, pois os filhos, que são quem geralmente os vendem, já não podem ver aquele chaço à frente; têm pouquíssimos quilómetros, pois os Srs. Manueis que os conduzem, só os tiram da garagem quando é estritamente necessário; e estão como novos. São carros que estão ávidos por poder finalmente circular como Deus os pôs no mundo, ou seja, sem forras nos bancos, sem tapetes sobre os tapetes originais e sem a tradicional manta sobre a chapeleira. E por finalmente poderem ultrapassar as 4000 rpm.

Na verdade, tenho um certo carinho pelo Sr. Manuel porque o meu avô, também ele Manuel, não devia ser muito diferente dele, apesar de nunca ter testemunhado esse facto acompanhando-o à oficina. O meu avô era daqueles para quem o carro tinha que estar como se tivesse acabado de sair do stand. As saudades que tenho de o ver a arrancar com a unha uma grainha de resina que tivesse caído sobre o capô do seu magnífico Renault 5... tomara muitos Mercedes serem tratados como foi este Renault. Este e os outros porque o meu avô só teve Renaults.

O problema do Sr. Paulo não é o Sr. Manuel. O problema são os Srs. Manueis que tem de aturar todos os dias. E muita sorte tem ele quando aparecem Srs. Manueis com marcação. Também há aqueles que aparecem sem aviso prévio, só porque o carro está a fazer um barulhinho, ou outra porcaria qualquer. E que, dado o seu estatuto de antiguidade e o peso da sua idade se sentem no direito de ver o seu problema resolvido na hora. O que lhes vale é que o Sr. Paulo tem um coração do tamanho do mundo e, apesar daquela cara, nunca lhes conseguir dizer que não. Só tenho pena de que quando chegar à idade do Sr. Manuel, o Sr. Paulo seja já também um Sr. Manuel, tal como eu...

9-9-2023

sexta-feira, 6 de março de 2026

Manual do Funeral

Quando ir ou não ir a um funeral é uma questão social de bastante pertinência, já que morrer faz parte da vida, como dizia o outro. E à medida que nos vamos aproximando desse evento único, um número maior de pessoas nossas conhecidas o vão encontrando antes de nós. Em geral os que são mais velhos do que nós, embora muito frequentemente, nem sempre. Se o ente nos é muito querido a questão é diferente, mas quando não, trata-se de fazermos o quê? É para responder a esta questão que se elabora este manual.

Em primeiro lugar para prestar uma homenagem à pessoa que partiu, se achamos que essa pessoa o merece, claro. É muito triste quando só aparece meia dúzia de pessoas num funeral. Percebe-se o quão humilde ou insignificante ela foi e o quanto passou despercebida por estas paragens. Esta consciência permite-nos compreender, de uma forma rápida, se devemos ou não comparecer às exéquias.

Há depois a compaixão para com aqueles que estão em sofrimento por terem perdido alguém que lhes foi querido ou muito querido, com os quais, dependendo do nosso grau de amizade, consideração, parentesco ou outro, temos obrigação de amparar, consolar, mostrar a nossa solidariedade e presença, que podem contar connosco, que ainda cá estamos para lhes dar alegrias mesmo sabendo que não podemos substituir quem se foi. Estas são as razões fundamentais e genuínas.

A questão religiosa acaba por ser de menor importância quanto a mim, pois a oração pode ser feita em qualquer lugar não sendo obrigatório que seja feita à vista de todos e depende da fé de cada um, que nestas ocasiões tem tendência a ser sempre mais fervorosa.

Quanto às razões de interesse próprio, que têm uma importância maior ou menor consoante o carácter do próprio, e sobre as quais não me vou alongar muito, são muitas. Convém sempre que sejam devidamente camufladas para dar a entender que foi um dos motivos nobres que nos moveu. Podemos estar interessados em agradar a algum superior hierárquico, ou em não ser apontado por ninguém ou até mesmo em ver se nos calha alguma coisa em herança. Enfim, há uma série de vantagens que se podem obter com a nossa comparência e desvantagens com a nossa ausência, cabendo-nos ponderar bem o que fazer.

Independentemente da razão, a escolha da indumentária é sempre um fator importante. É uma arte que se vai aprimorando com o tempo e que necessita de algum tato e alguma experiência. Esta deve ser escolhida de forma a não ofender, em primeiro lugar, os entes queridos do defunto. Há sempre um risco de se pecar por excesso ou por defeito, cabendo a nós perspicazmente avaliar essa situação. Mas, como quer se queira quer não, se trata sempre de um evento social, devemos prever quem irá estar presente para decidirmos de que forma queremos ou não impressionar. Repare-se que tanto se impressiona pela positiva como pela negativa, pelo que devemos escolher, consoante o nosso objetivo, o tipo de roupa a envergar ou optar por uma sempre eficaz indumentária neutra.

Em relação à nossa postura, por respeito aos mais íntimos e aos que estão em maior sofrimento, devemos esforçarmo-nos por manter sempre uma expressão grave, um ar circunspecto, evitando risos e palavras audíveis a mais de dois metros. Cada vez mais se vai encontrando por esses funerais a fora, infelizmente, pessoas que perdem a compostura e se convencem de que estão numa festa de aniversário.

Deixo ainda uma última dica: se o defunto for bastante popular temos a nossa tarefa facilitada, bastando-nos marcar presença, cumprimentando os entes queridos e sair de fininho, imediatamente depois. Nestes casos, no meio da confusão, ninguém vai perceber quanto tempo estivemos no evento ou dar pela nossa falta. A menos que, claro está, sejamos alguém que possa trazer vantagens a algum dos pesarosos presentes, o que em geral não é o caso.

9-2-2020

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

A casa abandonada

Há bastante tempo, estando num encontro de família algures na província, calhou, quando cirandava com a pandilha pelas redondezas, entrarmos numa casa abandonada que, por sorte, não tinha sido devassada por ninguém.

As sensações que me provocaram a visita foram tais que ainda hoje me lembro delas e mantenho um desejo intenso de as querer repetir. São sensações muito difíceis de entender e talvez mesmo impossíveis de descrever. Quando se entra numa casa destas há logo de início a sensação de violar a privacidade de um espaço que não nos pertence. Intensificada pelo facto de nos apercebermos de que há muito tempo que ninguém o fazia. Contudo, esta adrenalina é esmorecida no momento em que se entra em casa. Foi aqui que tive a sensação mais intensa. Quando entrei e encontrei os objectos dispostos nas mesmas posições em que estavam no dia em que a casa foi abandonada, muitos anos antes, de certeza. Esta certeza foi-me conferida pela acumulação de pó que se verificava em todo o cenário, testemunha inquestionável de que mais ninguém moveu do lugar o que quer que fosse durante longos anos. É uma sensação como que de estupefação, misturada com uma enorme pena. Mas, ao mesmo tempo, de querer continuar a deleitar-me com aquela pena. É um não resistir ao prazer provocado por um certo sofrimento. É uma espécie de saudade.

pena de quê? Da vida que existiu e se extinguiu? Da felicidade e alegria que se reflectem nos pequenos vestígios que o tempo ainda não conseguiu apagar? De não se poder voltar atrás no tempo e restituir toda aquela vida? Não sei. Talvez seja a sensação de viajar no tempo que me fascina. Nestes cenários ficam como que cristalizados os momentos que foram os últimos que lá se viveram. Provavelmente sem que ninguém disso suspeitasse. E, apesar dos efeitos que o tempo provocou, debaixo do pó que se foi acumulando, das cores que foram desmaiando, das madeiras que foram apodrecendo ou sendo comidas pelos bichos, consegue-se sentir tudo como se o tempo não tivesse passado por lá. Parece que os objectos nos sussurram. Nos fazem sentir a presença das pessoas que estão ausentes. É uma sensação muito diferente daquela que se experimenta quando se observa uma fotografia antiga, de uma pessoa ou de um grupo de pessoas. Aqui também se conseguem “ouvir” essas pessoas, também se consegue viajar no tempo, mas é uma sensação muito diferente. Na fotografia visitamos aquele passado como que à distância. Nos locais abandonados não. A viagem pelo tempo é real, os objectos estão ali e as pessoas é como se também lá estivessem.

Parece que os objectos mantêm agarrados a si parte de quem os guardou. Mas não estou com isto a sugerir nada do mundo transcendente, do mundo dos espíritos ou coisa parecida, pois esta sensação é-nos transmitida mesmo quando as pessoas ainda estão vivas. Lembro-me de quando era miúdo estar sozinho em casa e ir ao quarto dos meus pais para sentir a sua presença. Olhava para os objectos sobre as suas mesinhas de cabeceira e via como estavam dispostos, ordenados ou desordenados, a fotografia da minha avó, do lado do meu pai. Um livro com o seu marcador. Um anel que a minha mãe não levou. Apesar de não estarem lá, e de o barulho do ponteiro dos segundos do despertador quebrar aquele silêncio que evidenciava isso mesmo, eu conseguia sentir a sua presença como se lá estivessem. Penso que nas casas abandonadas se tem uma sensação parecida com esta, mas sem conhecermos as pessoas que lá viveram. Tudo fica por conta da nossa imaginação que, com recurso às peças existentes, tenta reconstruir para si a imagem completa do puzzle. E é a imagem assim criada que pode ou não despertar grande fascínio.

Sensação parecida tinha eu também quando passava numa papelaria há muito abandonada, e tudo estava ainda nos mesmos lugares como se a loja tivesse fechado ontem, mas onde já havia peças do teto falso que quiseram, juntamente com o pó, acumular-se sobre o chão e o balcão. Acho que ainda terei que fazer mais visitas destas para conseguir compreender a razão de tanto gostar de as fazer.

21-10-2018

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O mesmo caminho, destinos diferentes

Hoje, por coincidência, fiz a pé exactamente o mesmo caminho que fiz há muito tempo atrás, quando tinha aí uns 18 anos. Com a diferença de hoje o ter feito sozinho.

As pedras da calçada ainda devem ser as mesmas, mas naquele dia este caminho levou-me muito mais longe do que hoje.

Naquela altura ainda não tinha tido nenhuma namorada. Tinha tido muitas paixões, desde muito cedo. Ainda hoje me lembro por quem tive esse sentimento pela primeira vez. Andava eu na 1ª classe. Por azar, por falta de jeito ou por outro motivo qualquer, nunca tinha conseguido conquistar nenhuma das pessoas que amei.

Naquele dia tinha ido a um bar com música ao vivo com um grupo de amigos. A música era calma e sedutora. O pouco dinheiro que tinha deu para pagar a entrada e ter direito a uma ou duas bebidas, já não me lembro. Devo ter bebido qualquer coisa alcoólica, pois gosto daquela sensação de pré-inebriamento. Fazia-me ficar um pouco mais solto. Os pares começaram a formar-se e a dançar. Alguns já eram compromissos antigos, outros menos.

Nestas idades os namoros são experiências. Há uns que começam, mas que nunca deveriam ter começado. Outros que terminam com um desgosto de morte para uma das partes. Outros sem desgosto de parte nenhuma. Havia uma rapariga nestas circunstâncias. Estava livre. Mas, talvez por hábito, ou por já não saber estar sozinha, queria estar com alguém. A pessoa de quem eu gostava não estava. Ou se calhar nem havia ninguém. Talvez estivesse a esquecer alguém. Mais um amor fracassado. Já não me lembro. O certo é que dei comigo a dançar com aquela miúda. Já a conhecia há muito mas ela nunca tinha despertado a minha atenção. Pelo menos a esse nível de sentimento.

Ela ofereceu-se um pouco na dança. E eu deixei-me levar, embalado pela música, mas com um sentimento ambíguo. Tinha nos braços uma mulher que não amava e que sentia que o mesmo se passava com ela, mas por outro lado sentia que podia ir até onde quisesse (nessa altura este lugar não passava muito para além de um beijo. Pelo menos para mim, um iniciado nestas matérias).

As danças foram passando e a vontade de experimentar o que nunca tinha feito começou a tomar conta de mim. E dela. Lembro-me de sair do bar e termos combinado que a levaria a casa. E fiz então o caminho que hoje repeti.

Sabia onde iria terminar o caminho, a menos que mudasse de ideias. Ia levar-me a um lugar onde nunca tinha estado mas que há muito desejava ir com a rapariga dos meus sonhos. Nunca lá quis ir com outra que não fosse essa, mas naquele dia desisti deste princípio. Perante uma perspectiva tão real, deixei-me levar pela curiosidade, e não só.

Foi assim que dei por mim, à porta da casa dela, despedindo-me com um beijo na boca perlongado. O meu primeiro beijo… Foi tão estranho. Pensava que era uma coisa melhor. Em vez de estar eufórico, com o meu amor nos braços, estava preocupado que ela descobrisse que eu era um principiante. Não estava confortável com a situação e já só queria era ir-me embora. O até amanhã enfim chegou e no dia seguinte, tirando o facto de ter granjeado mais algum respeito por parte da malta, continuou tudo na mesma. Continuei à espera de um primeiro beijo. Daquele em que o tacto e o olfacto são insignificantes comparados com o paraíso que é sentir-se amado pela mulher amada.

30-1-2016


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Explicação científica para o aparecimento de vida na Terra

Há muito, muito tempo, muito antes de o meu Avô nascer, o universo estava muito vazio. Podíamos andar quilómetros e quilómetros sem ver vivalma. No entanto, bem no seu centro, havia um grande aglomerado de matéria de todos os géneros e feitios. Todos muito juntos, como no Terreiro do Paço na passagem de ano.

Esta situação manteve-se assim durante milénios. Mas como podem adivinhar, não há comunidade, ainda por cima de culturas e meios tão diferentes, que consiga viver harmoniosamente durante tanto tempo. A partir de certa altura as relações começaram a azedar. Havia vozes que se levantavam mais alto; quezílias entre as moléculas (inclusive com puxões de cabelos); átomos que começavam a abusar da sua força física; enfim o ambiente estava a ficar ao rubro.

Quando a situação se tornou completamente descontrolada um átomo de chumbo atira para o ar um tiro com o seu grande pistolão e dá-se assim o Big Bang.

Toda aquela matéria, já farta de tudo aquilo, resolve partir e procurar o seu próprio espaço num outro canto qualquer do universo. Mais ou menos juntos por graus de afinidade, afectividade, atracção ou repulsão foram formando um universo muito parecido com aquele que conhecemos hoje.

Os mais hiperactivos deram origem às estrelas, outros a planetas, a astreoides, etc. Organizaram-se em galáxias e em sistemas, um dos quais conhecemos bem que foi onde se formou o magnífico planeta Terra.

Este planeta estava bastante bem localizado. Nem muito perto, nem muito longe da estrela. Tinha água em abundância, as temperaturas eram amenas, a comparar com o que havia nos arredores, enfim todas as condições para haver vida. Reparem que tudo isto aconteceu por acaso.

Mas, num belo dia, estavam duas moléculas sentadas, de perna traçada, a tomar um pouco de sol no alto de uma colina quando, de repente, sofrem uma abrupta colisão de dois átomos que são arremessados contra elas pelo vento. Com o impacto as moléculas desequilibram-se e, juntamente com os átomos, começam a rebolar colina abaixo. Neste movimento dá-se o fenómeno "bola de neve" e começam a agarrar-se a eles mais moléculas e átomos das mais variadas origens. Quando por fim chegam ao vale e param olham para si próprios e já não se vêem como um monte de matéria mas sim reparam que se mexem, interagem com o exterior e se podem reproduzir. E assim, por via de um mero acaso, se forma uma célula, de quem todos nós descendemos. Simples não?


14-01-2015

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O Planeta Azul

O Ambiente nunca esteve tão presente nas nossas preocupações como hoje. Há já algumas décadas que estamos a perceber o efeito que temos tido nele. E não o classifiquei de “negativo” propositadamente. O nosso comportamento tem tido um efeito que apenas para nós próprios é negativo. Para a Humanidade. Para a Natureza, façamos o que fizermos, ela adaptar-se-á.

Para a Terra a nossa existência resume-se a um pequeno episódio. Vejamos: estima-se que a Terra tenha 13.800 milhões de anos. Há 66 milhões de anos terá havido uma catástrofe natural que extinguiu uma série de animais, entre os quais os dinossauros. Nessa altura a Terra já contava a provecta idade de 13.734 milhões de anos. Uma idade já não muito distante da idade prevista para o seu fim, quando a nossa estrela a engolir, que será quando tiver 15.300 milhões de anos. É este o período de tempo de que estamos a falar. O Homo Sapiens terá surgido quando a Terra já contava 13.799,6 milhões de “primaveras”, há 0,3 milhões de anos. Ao utilizar a mesma unidade temporal para todos os acontecimentos percebemos o quão insignificante é o período da nossa existência.

Isto para dizer que por pior que tratemos o nosso planeta, por mais plástico que produzamos e deitemos ao mar, por mais dióxido de carbono que emitamos, por mais gelo que por nossa causa derreta nos oceanos, por mais submersas que fiquem as nossas cidades, por mais desertas que fiquem as nossas florestas, por mais árvores que abatamos na Amazónia, por mais animais que morram por causa da nossa poluição, o mais provável é que, quando a Terra tiver 13.801 milhões de anos, ou seja daqui a uma ninharia de tempo, 1 milhão de anos apenas, a Humanidade já não exista há muito muito tempo (na nossa escala) e que o Planeta Azul esteja totalmente diferente. Muito provavelmente mais bonito do que nunca, com outros animais e outras plantas. Com outras zonas desertas e outras zonas verdes mas, infelizmente, talvez já sem ninguém com capacidade para apreciar essa beleza.

A Natureza não nos vai agradecer ou culpar pelo tratamento que lhe dermos. Ela apenas se irá adaptar e continuar a transformar-se num dos planetas mais bonitos do universo (a nosso ver, claro). Nós é que devemos agradecer ou culpar o nosso comportamento. Porque dele depende a duração da nossa existência neste planeta. Quanto mais contribuirmos para preservar a Terra com as condições que ela adquiriu, favoráveis à nossa existência, mais tempo conseguiremos nela existir. Se as condições se alterarem mais depressa do que a capacidade que temos de evoluir como espécie para se lhe adaptarmos então deixaremos de existir. Tão simples quanto isto.


23-12-20219


Os passageiros habitués

Há cinco anos mudei de emprego e voltei a utilizar os transportes públicos, coisa que já não fazia desde os tempos de estudante e que sempre...