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sexta-feira, 13 de março de 2026

O Sr. Manuel

O Sr. Manuel está reformado. Conheço-o há alguns anos, da oficina onde costumo pôr o carro a arranjar. Encontro-o por lá muitas das vezes que lá vou. Melhor dizendo: encontro-o já por lá, pois creio nunca lá ter chegado antes do Sr. Manuel. E costumo chegar bem cedo. Dá-me a sensação de que o Sr. Manuel chega lá ainda antes do cacarejar dos galos daquelas redondezas. Por vezes não vejo logo o Sr. Manuel, mas fico a saber que ele já lá está pela cara do Sr. Paulo, que é o dono da oficina, que já conheço há mais de vinte anos. Quando o Sr. Paulo está com aquela cara de pescoço retorcido olhando para mim de lado e a dizer de si para si aquele palavrão que se aplica a quase tudo, já sei que o Sr. Manuel lá está. E quando lhe pergunto: Então Sr. Paulo...? e ele me responde. Foda-se! fico com a certeza.

O Sr. Manuel é daqueles que marca a revisão do seu Opel Astra de 2001, irrepreensivelmente estimado, com duas semanas de antecedência. E, dia após dia, vai lembrando a mulher: Maria, no dia tal vou ter que ir à revisão! E à medida que o dia se vai aproximando a inquietação vai tomando conta de si e, por osmose, também da Dª. Maria. É por isso que no dia da revisão, o Sr. Manuel às 5 da manhã já está de barba feita à espera de poder finalmente cumprir tão almejada tarefa.

Mas o que irrita o Sr. Paulo não é tanto o facto do Sr. Manuel se apresentar tão cedo mas sim o de não arredar pé enquanto o seu automóvel (que é assim que o Sr. Manuel designa o carro) não estiver pronto. Inspeccionando o trabalho; querendo saber se ainda falta muito; não permitindo ao mecânico qualquer atalho para despachar o serviço. Ou seja, garantindo que tudo vai ser feito com a máxima perfeição, ao mesmo tempo que, na hora da apresentação da fatura, tudo possa estar rigorosamente em conformidade.

O carro do Sr. Manuel, é aquele tipo de carro que quando estiver à venda no Olx, é uma lotaria para o comprador. Geralmente não estão a pedir muito por ele, pois os filhos, que são quem geralmente os vendem, já não podem ver aquele chaço à frente; têm pouquíssimos quilómetros, pois os Srs. Manueis que os conduzem, só os tiram da garagem quando é estritamente necessário; e estão como novos. São carros que estão ávidos por poder finalmente circular como Deus os pôs no mundo, ou seja, sem forras nos bancos, sem tapetes sobre os tapetes originais e sem a tradicional manta sobre a chapeleira. E por finalmente poderem ultrapassar as 4000 rpm.

Na verdade, tenho um certo carinho pelo Sr. Manuel porque o meu avô, também ele Manuel, não devia ser muito diferente dele, apesar de nunca ter testemunhado esse facto acompanhando-o à oficina. O meu avô era daqueles para quem o carro tinha que estar como se tivesse acabado de sair do stand. As saudades que tenho de o ver a arrancar com a unha uma grainha de resina que tivesse caído sobre o capô do seu magnífico Renault 5... tomara muitos Mercedes serem tratados como foi este Renault. Este e os outros porque o meu avô só teve Renaults.

O problema do Sr. Paulo não é o Sr. Manuel. O problema são os Srs. Manueis que tem de aturar todos os dias. E muita sorte tem ele quando aparecem Srs. Manueis com marcação. Também há aqueles que aparecem sem aviso prévio, só porque o carro está a fazer um barulhinho, ou outra porcaria qualquer. E que, dado o seu estatuto de antiguidade e o peso da sua idade se sentem no direito de ver o seu problema resolvido na hora. O que lhes vale é que o Sr. Paulo tem um coração do tamanho do mundo e, apesar daquela cara, nunca lhes conseguir dizer que não. Só tenho pena de que quando chegar à idade do Sr. Manuel, o Sr. Paulo seja já também um Sr. Manuel, tal como eu...

9-9-2023

sexta-feira, 6 de março de 2026

Manual do Funeral

Quando ir ou não ir a um funeral é uma questão social de bastante pertinência, já que morrer faz parte da vida, como dizia o outro. E à medida que nos vamos aproximando desse evento único, um número maior de pessoas nossas conhecidas o vão encontrando antes de nós. Em geral os que são mais velhos do que nós, embora muito frequentemente, nem sempre. Se o ente nos é muito querido a questão é diferente, mas quando não, trata-se de fazermos o quê? É para responder a esta questão que se elabora este manual.

Em primeiro lugar para prestar uma homenagem à pessoa que partiu, se achamos que essa pessoa o merece, claro. É muito triste quando só aparece meia dúzia de pessoas num funeral. Percebe-se o quão humilde ou insignificante ela foi e o quanto passou despercebida por estas paragens. Esta consciência permite-nos compreender, de uma forma rápida, se devemos ou não comparecer às exéquias.

Há depois a compaixão para com aqueles que estão em sofrimento por terem perdido alguém que lhes foi querido ou muito querido, com os quais, dependendo do nosso grau de amizade, consideração, parentesco ou outro, temos obrigação de amparar, consolar, mostrar a nossa solidariedade e presença, que podem contar connosco, que ainda cá estamos para lhes dar alegrias mesmo sabendo que não podemos substituir quem se foi. Estas são as razões fundamentais e genuínas.

A questão religiosa acaba por ser de menor importância quanto a mim, pois a oração pode ser feita em qualquer lugar não sendo obrigatório que seja feita à vista de todos e depende da fé de cada um, que nestas ocasiões tem tendência a ser sempre mais fervorosa.

Quanto às razões de interesse próprio, que têm uma importância maior ou menor consoante o carácter do próprio, e sobre as quais não me vou alongar muito, são muitas. Convém sempre que sejam devidamente camufladas para dar a entender que foi um dos motivos nobres que nos moveu. Podemos estar interessados em agradar a algum superior hierárquico, ou em não ser apontado por ninguém ou até mesmo em ver se nos calha alguma coisa em herança. Enfim, há uma série de vantagens que se podem obter com a nossa comparência e desvantagens com a nossa ausência, cabendo-nos ponderar bem o que fazer.

Independentemente da razão, a escolha da indumentária é sempre um fator importante. É uma arte que se vai aprimorando com o tempo e que necessita de algum tato e alguma experiência. Esta deve ser escolhida de forma a não ofender, em primeiro lugar, os entes queridos do defunto. Há sempre um risco de se pecar por excesso ou por defeito, cabendo a nós perspicazmente avaliar essa situação. Mas, como quer se queira quer não, se trata sempre de um evento social, devemos prever quem irá estar presente para decidirmos de que forma queremos ou não impressionar. Repare-se que tanto se impressiona pela positiva como pela negativa, pelo que devemos escolher, consoante o nosso objetivo, o tipo de roupa a envergar ou optar por uma sempre eficaz indumentária neutra.

Em relação à nossa postura, por respeito aos mais íntimos e aos que estão em maior sofrimento, devemos esforçarmo-nos por manter sempre uma expressão grave, um ar circunspecto, evitando risos e palavras audíveis a mais de dois metros. Cada vez mais se vai encontrando por esses funerais a fora, infelizmente, pessoas que perdem a compostura e se convencem de que estão numa festa de aniversário.

Deixo ainda uma última dica: se o defunto for bastante popular temos a nossa tarefa facilitada, bastando-nos marcar presença, cumprimentando os entes queridos e sair de fininho, imediatamente depois. Nestes casos, no meio da confusão, ninguém vai perceber quanto tempo estivemos no evento ou dar pela nossa falta. A menos que, claro está, sejamos alguém que possa trazer vantagens a algum dos pesarosos presentes, o que em geral não é o caso.

9-2-2020

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O mesmo caminho, destinos diferentes

Hoje, por coincidência, fiz a pé exactamente o mesmo caminho que fiz há muito tempo atrás, quando tinha aí uns 18 anos. Com a diferença de hoje o ter feito sozinho.

As pedras da calçada ainda devem ser as mesmas, mas naquele dia este caminho levou-me muito mais longe do que hoje.

Naquela altura ainda não tinha tido nenhuma namorada. Tinha tido muitas paixões, desde muito cedo. Ainda hoje me lembro por quem tive esse sentimento pela primeira vez. Andava eu na 1ª classe. Por azar, por falta de jeito ou por outro motivo qualquer, nunca tinha conseguido conquistar nenhuma das pessoas que amei.

Naquele dia tinha ido a um bar com música ao vivo com um grupo de amigos. A música era calma e sedutora. O pouco dinheiro que tinha deu para pagar a entrada e ter direito a uma ou duas bebidas, já não me lembro. Devo ter bebido qualquer coisa alcoólica, pois gosto daquela sensação de pré-inebriamento. Fazia-me ficar um pouco mais solto. Os pares começaram a formar-se e a dançar. Alguns já eram compromissos antigos, outros menos.

Nestas idades os namoros são experiências. Há uns que começam, mas que nunca deveriam ter começado. Outros que terminam com um desgosto de morte para uma das partes. Outros sem desgosto de parte nenhuma. Havia uma rapariga nestas circunstâncias. Estava livre. Mas, talvez por hábito, ou por já não saber estar sozinha, queria estar com alguém. A pessoa de quem eu gostava não estava. Ou se calhar nem havia ninguém. Talvez estivesse a esquecer alguém. Mais um amor fracassado. Já não me lembro. O certo é que dei comigo a dançar com aquela miúda. Já a conhecia há muito mas ela nunca tinha despertado a minha atenção. Pelo menos a esse nível de sentimento.

Ela ofereceu-se um pouco na dança. E eu deixei-me levar, embalado pela música, mas com um sentimento ambíguo. Tinha nos braços uma mulher que não amava e que sentia que o mesmo se passava com ela, mas por outro lado sentia que podia ir até onde quisesse (nessa altura este lugar não passava muito para além de um beijo. Pelo menos para mim, um iniciado nestas matérias).

As danças foram passando e a vontade de experimentar o que nunca tinha feito começou a tomar conta de mim. E dela. Lembro-me de sair do bar e termos combinado que a levaria a casa. E fiz então o caminho que hoje repeti.

Sabia onde iria terminar o caminho, a menos que mudasse de ideias. Ia levar-me a um lugar onde nunca tinha estado mas que há muito desejava ir com a rapariga dos meus sonhos. Nunca lá quis ir com outra que não fosse essa, mas naquele dia desisti deste princípio. Perante uma perspectiva tão real, deixei-me levar pela curiosidade, e não só.

Foi assim que dei por mim, à porta da casa dela, despedindo-me com um beijo na boca perlongado. O meu primeiro beijo… Foi tão estranho. Pensava que era uma coisa melhor. Em vez de estar eufórico, com o meu amor nos braços, estava preocupado que ela descobrisse que eu era um principiante. Não estava confortável com a situação e já só queria era ir-me embora. O até amanhã enfim chegou e no dia seguinte, tirando o facto de ter granjeado mais algum respeito por parte da malta, continuou tudo na mesma. Continuei à espera de um primeiro beijo. Daquele em que o tacto e o olfacto são insignificantes comparados com o paraíso que é sentir-se amado pela mulher amada.

30-1-2016


Os passageiros habitués

Há cinco anos mudei de emprego e voltei a utilizar os transportes públicos, coisa que já não fazia desde os tempos de estudante e que sempre...