sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

A casa abandonada

Há bastante tempo, estando num encontro de família algures na província, calhou, quando cirandava com a pandilha pelas redondezas, entrarmos numa casa abandonada que, por sorte, não tinha sido devassada por ninguém.

As sensações que me provocaram a visita foram tais que ainda hoje me lembro delas e mantenho um desejo intenso de as querer repetir. São sensações muito difíceis de entender e talvez mesmo impossíveis de descrever. Quando se entra numa casa destas há logo de início a sensação de violar a privacidade de um espaço que não nos pertence. Intensificada pelo facto de nos apercebermos de que há muito tempo que ninguém o fazia. Contudo, esta adrenalina é esmorecida no momento em que se entra em casa. Foi aqui que tive a sensação mais intensa. Quando entrei e encontrei os objectos dispostos nas mesmas posições em que estavam no dia em que a casa foi abandonada, muitos anos antes, de certeza. Esta certeza foi-me conferida pela acumulação de pó que se verificava em todo o cenário, testemunha inquestionável de que mais ninguém moveu do lugar o que quer que fosse durante longos anos. É uma sensação como que de estupefação, misturada com uma enorme pena. Mas, ao mesmo tempo, de querer continuar a deleitar-me com aquela pena. É um não resistir ao prazer provocado por um certo sofrimento. É uma espécie de saudade.

pena de quê? Da vida que existiu e se extinguiu? Da felicidade e alegria que se reflectem nos pequenos vestígios que o tempo ainda não conseguiu apagar? De não se poder voltar atrás no tempo e restituir toda aquela vida? Não sei. Talvez seja a sensação de viajar no tempo que me fascina. Nestes cenários ficam como que cristalizados os momentos que foram os últimos que lá se viveram. Provavelmente sem que ninguém disso suspeitasse. E, apesar dos efeitos que o tempo provocou, debaixo do pó que se foi acumulando, das cores que foram desmaiando, das madeiras que foram apodrecendo ou sendo comidas pelos bichos, consegue-se sentir tudo como se o tempo não tivesse passado por lá. Parece que os objectos nos sussurram. Nos fazem sentir a presença das pessoas que estão ausentes. É uma sensação muito diferente daquela que se experimenta quando se observa uma fotografia antiga, de uma pessoa ou de um grupo de pessoas. Aqui também se conseguem “ouvir” essas pessoas, também se consegue viajar no tempo, mas é uma sensação muito diferente. Na fotografia visitamos aquele passado como que à distância. Nos locais abandonados não. A viagem pelo tempo é real, os objectos estão ali e as pessoas é como se também lá estivessem.

Parece que os objectos mantêm agarrados a si parte de quem os guardou. Mas não estou com isto a sugerir nada do mundo transcendente, do mundo dos espíritos ou coisa parecida, pois esta sensação é-nos transmitida mesmo quando as pessoas ainda estão vivas. Lembro-me de quando era miúdo estar sozinho em casa e ir ao quarto dos meus pais para sentir a sua presença. Olhava para os objectos sobre as suas mesinhas de cabeceira e via como estavam dispostos, ordenados ou desordenados, a fotografia da minha avó, do lado do meu pai. Um livro com o seu marcador. Um anel que a minha mãe não levou. Apesar de não estarem lá, e de o barulho do ponteiro dos segundos do despertador quebrar aquele silêncio que evidenciava isso mesmo, eu conseguia sentir a sua presença como se lá estivessem. Penso que nas casas abandonadas se tem uma sensação parecida com esta, mas sem conhecermos as pessoas que lá viveram. Tudo fica por conta da nossa imaginação que, com recurso às peças existentes, tenta reconstruir para si a imagem completa do puzzle. E é a imagem assim criada que pode ou não despertar grande fascínio.

Sensação parecida tinha eu também quando passava numa papelaria há muito abandonada, e tudo estava ainda nos mesmos lugares como se a loja tivesse fechado ontem, mas onde já havia peças do teto falso que quiseram, juntamente com o pó, acumular-se sobre o chão e o balcão. Acho que ainda terei que fazer mais visitas destas para conseguir compreender a razão de tanto gostar de as fazer.

21-10-2018

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