Quando ir ou não ir a um funeral é uma questão social de bastante pertinência, já que morrer faz parte da vida, como dizia o outro. E à medida que nos vamos aproximando desse evento único, um número maior de pessoas nossas conhecidas o vão encontrando antes de nós. Em geral os que são mais velhos do que nós, embora muito frequentemente, nem sempre. Se o ente nos é muito querido a questão é diferente, mas quando não, trata-se de fazermos o quê? É para responder a esta questão que se elabora este manual.
Em primeiro lugar para prestar uma homenagem à pessoa que partiu, se achamos que essa pessoa o merece, claro. É muito triste quando só aparece meia dúzia de pessoas num funeral. Percebe-se o quão humilde ou insignificante ela foi e o quanto passou despercebida por estas paragens. Esta consciência permite-nos compreender, de uma forma rápida, se devemos ou não comparecer às exéquias.
Há depois a compaixão para com aqueles que estão em sofrimento por terem perdido alguém que lhes foi querido ou muito querido, com os quais, dependendo do nosso grau de amizade, consideração, parentesco ou outro, temos obrigação de amparar, consolar, mostrar a nossa solidariedade e presença, que podem contar connosco, que ainda cá estamos para lhes dar alegrias mesmo sabendo que não podemos substituir quem se foi. Estas são as razões fundamentais e genuínas.
A questão religiosa acaba por ser de menor importância quanto a mim, pois a oração pode ser feita em qualquer lugar não sendo obrigatório que seja feita à vista de todos e depende da fé de cada um, que nestas ocasiões tem tendência a ser sempre mais fervorosa.
Quanto às razões de interesse próprio, que têm uma importância maior ou menor consoante o carácter do próprio, e sobre as quais não me vou alongar muito, são muitas. Convém sempre que sejam devidamente camufladas para dar a entender que foi um dos motivos nobres que nos moveu. Podemos estar interessados em agradar a algum superior hierárquico, ou em não ser apontado por ninguém ou até mesmo em ver se nos calha alguma coisa em herança. Enfim, há uma série de vantagens que se podem obter com a nossa comparência e desvantagens com a nossa ausência, cabendo-nos ponderar bem o que fazer.
Independentemente da razão, a escolha da indumentária é sempre um fator importante. É uma arte que se vai aprimorando com o tempo e que necessita de algum tato e alguma experiência. Esta deve ser escolhida de forma a não ofender, em primeiro lugar, os entes queridos do defunto. Há sempre um risco de se pecar por excesso ou por defeito, cabendo a nós perspicazmente avaliar essa situação. Mas, como quer se queira quer não, se trata sempre de um evento social, devemos prever quem irá estar presente para decidirmos de que forma queremos ou não impressionar. Repare-se que tanto se impressiona pela positiva como pela negativa, pelo que devemos escolher, consoante o nosso objetivo, o tipo de roupa a envergar ou optar por uma sempre eficaz indumentária neutra.
Em relação à nossa postura, por respeito aos mais íntimos e aos que estão em maior sofrimento, devemos esforçarmo-nos por manter sempre uma expressão grave, um ar circunspecto, evitando risos e palavras audíveis a mais de dois metros. Cada vez mais se vai encontrando por esses funerais a fora, infelizmente, pessoas que perdem a compostura e se convencem de que estão numa festa de aniversário.
Deixo ainda uma última dica: se o defunto for bastante popular temos a nossa tarefa facilitada, bastando-nos marcar presença, cumprimentando os entes queridos e sair de fininho, imediatamente depois. Nestes casos, no meio da confusão, ninguém vai perceber quanto tempo estivemos no evento ou dar pela nossa falta. A menos que, claro está, sejamos alguém que possa trazer vantagens a algum dos pesarosos presentes, o que em geral não é o caso.
9-2-2020
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