terça-feira, 17 de março de 2026

Os passageiros habitués

Há cinco anos mudei de emprego e voltei a utilizar os transportes públicos, coisa que já não fazia desde os tempos de estudante e que sempre me agradou.

Apesar dos 50 km que me separam do trabalho, a hora e três quartos que gasto nos transportes é sempre muito bem passada, proporcionando-me prazeres impossíveis de obter quando vou de carro. Um deles está na observação dos passageiros, que é sempre uma distracção bastante interessante. Há os passageiros passageiros, como o nome indica, mas há também os habitués. E destes, há aqueles que fazem um trajeto tão grande como o meu e até aqueles que já lá estão quando entro e continuam quando saio. Com estes passageiros, os habitués, já há uma espécie de relacionamento. Se estão alguns dias sem aparecer, já estranho e indago sobre o que lhes terá acontecido. A proximidade atinge um nível tal que, não conhecendo os seus nomes, para agilizar as minhas linhas de pensamento, acabo por lhes atribuir alcunhas.

A Tucha, por exemplo, foi uma passageira que me acompanhou durante cerca de dois anos. Apanhava o comboio uma estação depois de mim e a seguir o metro. Lembram-se da boneca? Era mais ou menos como ela, mas em loira. Vestia calças e botas de salto alto, com um casaco abotoado e apertado com um cinto. Entrava sempre na primeira porta da primeira carruagem do metro. Como era alta, geralmente sobressaía no meio da multidão. Até que um dia deixei de a ver por aquelas paragens.

O Morcão, conheci logo no início e ainda o vejo de vez em quando. Nessa altura, apanhava o autocarro a meio da minha viagem e era aí que o encontrava. Quando a Covid acabou, o trânsito piorou bastante e andar de autocarro deixou de ser para mim uma opção. Apesar de lhe ter falado por duas ou três vezes, no tempo em que ainda não percebia nada de transportes, ele sempre me ignorou nas vezes seguintes. Trabalha muito perto de mim e por vezes vejo-o à hora do almoço no supermercado, mas já desisti de o cumprimentar.

Outros quatro apanham o comboio em estações próximas daquela de que me sirvo. Um, deixei de ver há cerca de dois anos. Deve ter-se reformado. Outro, que anda nestas lides há menos tempo, daqueles que fazem um percurso ainda maior do que o meu, é o James Bond. Vai sempre de fatinho e mala de executivo. No verão não tira os óculos escuros nem no comboio nem no metro. E gosta de viajar em pé. Já o aviador, porque presumo que trabalhe numa empresa ligada aos transportes aéreos, entra e sai precisamente nas mesmas estações do que eu. Só não faz os 3,5 km que ainda faço depois disso de bicicleta.

Só falta o professor Astromar, companheiro de longa data. Quem viu a telenovela Roque Santeiro sabe a quem o estou a associar. É muito parecido. É talvez o meu companheiro mais antigo. Do tempo do Morcão e do Reformado. Tem uma forma muito peculiar de caminhar. Um passo dele equivale a dois meus, e dá-os de uma maneira muito científica, pois vai descrevendo com a bacia e todo o corpo que esta sustenta, uma sinusoide perfeita. Parecendo que vai devagar atinge desta forma velocidades surpreendentes, conseguindo apanhar o transporte seguinte nas correspondências, sem que eu o consiga fazer se não desatar a correr.

Mas a personagem mais intrigante, que descobri há cerca de quatro anos, nem sequer é um viajante. Pelo menos nunca o vi dentro de uma composição. Vejo-o sempre à mesma hora, no mesmo banco da mesma estação de metro, a ler o mesmo jornal. Quer dizer, presumo que o vá atualizando. Não está a olhar para quem sai nem para quem entra. Apenas dirige os olhos para o jornal através dos mesmos óculos, apoiados no nariz que encima o seu farto bigode, nem mais curto nem mais comprido do que sempre. Já tive ganas de me sentar ao seu lado só para ver o que aconteceria. Se vai esperar alguém, vai com muita antecedência. Pode estar a aquecer-se se for inverno ou a refrescar-se se for verão, mas nesse caso o que faz ele ali na meia estação? Seria óbvio de mais se fosse um espião. A espiar o quê ali durante tanto tempo? Por isso não lhe chamei Espião. Preferi alcunhá-lo de Ferroviário. Assenta-lhe como uma luva.

Estamos todos fartos de nos conhecer. Talvez também eles inventem alcunhas para os demais. Gostava de saber se tenho alguma. Mas parece haver um pacto de não aproximação entre nós. Nenhum de nós entabula conversa com o outro. Talvez, como eu, nenhum queira ficar preso ao outro. Que seria ter de cumprimentar o professor Astromar sempre que o visse.  Sentar-me ao seu lado para irmos a conversar e deixar de observar o Ferroviário ou o James Bond? Ou de ir a ouvir música ou um podcast, ou de ler um livro ou um jornal, ou simplesmente de deitar o olho a uma Tucha? Há lá coisa melhor do que andar de transportes públicos?

sexta-feira, 13 de março de 2026

O Sr. Manuel

O Sr. Manuel está reformado. Conheço-o há alguns anos, da oficina onde costumo pôr o carro a arranjar. Encontro-o por lá muitas das vezes que lá vou. Melhor dizendo: encontro-o já por lá, pois creio nunca lá ter chegado antes do Sr. Manuel. E costumo chegar bem cedo. Dá-me a sensação de que o Sr. Manuel chega lá ainda antes do cacarejar dos galos daquelas redondezas. Por vezes não vejo logo o Sr. Manuel, mas fico a saber que ele já lá está pela cara do Sr. Paulo, que é o dono da oficina, que já conheço há mais de vinte anos. Quando o Sr. Paulo está com aquela cara de pescoço retorcido olhando para mim de lado e a dizer de si para si aquele palavrão que se aplica a quase tudo, já sei que o Sr. Manuel lá está. E quando lhe pergunto: Então Sr. Paulo...? e ele me responde. Foda-se! fico com a certeza.

O Sr. Manuel é daqueles que marca a revisão do seu Opel Astra de 2001, irrepreensivelmente estimado, com duas semanas de antecedência. E, dia após dia, vai lembrando a mulher: Maria, no dia tal vou ter que ir à revisão! E à medida que o dia se vai aproximando a inquietação vai tomando conta de si e, por osmose, também da Dª. Maria. É por isso que no dia da revisão, o Sr. Manuel às 5 da manhã já está de barba feita à espera de poder finalmente cumprir tão almejada tarefa.

Mas o que irrita o Sr. Paulo não é tanto o facto do Sr. Manuel se apresentar tão cedo mas sim o de não arredar pé enquanto o seu automóvel (que é assim que o Sr. Manuel designa o carro) não estiver pronto. Inspeccionando o trabalho; querendo saber se ainda falta muito; não permitindo ao mecânico qualquer atalho para despachar o serviço. Ou seja, garantindo que tudo vai ser feito com a máxima perfeição, ao mesmo tempo que, na hora da apresentação da fatura, tudo possa estar rigorosamente em conformidade.

O carro do Sr. Manuel, é aquele tipo de carro que quando estiver à venda no Olx, é uma lotaria para o comprador. Geralmente não estão a pedir muito por ele, pois os filhos, que são quem geralmente os vendem, já não podem ver aquele chaço à frente; têm pouquíssimos quilómetros, pois os Srs. Manueis que os conduzem, só os tiram da garagem quando é estritamente necessário; e estão como novos. São carros que estão ávidos por poder finalmente circular como Deus os pôs no mundo, ou seja, sem forras nos bancos, sem tapetes sobre os tapetes originais e sem a tradicional manta sobre a chapeleira. E por finalmente poderem ultrapassar as 4000 rpm.

Na verdade, tenho um certo carinho pelo Sr. Manuel porque o meu avô, também ele Manuel, não devia ser muito diferente dele, apesar de nunca ter testemunhado esse facto acompanhando-o à oficina. O meu avô era daqueles para quem o carro tinha que estar como se tivesse acabado de sair do stand. As saudades que tenho de o ver a arrancar com a unha uma grainha de resina que tivesse caído sobre o capô do seu magnífico Renault 5... tomara muitos Mercedes serem tratados como foi este Renault. Este e os outros porque o meu avô só teve Renaults.

O problema do Sr. Paulo não é o Sr. Manuel. O problema são os Srs. Manueis que tem de aturar todos os dias. E muita sorte tem ele quando aparecem Srs. Manueis com marcação. Também há aqueles que aparecem sem aviso prévio, só porque o carro está a fazer um barulhinho, ou outra porcaria qualquer. E que, dado o seu estatuto de antiguidade e o peso da sua idade se sentem no direito de ver o seu problema resolvido na hora. O que lhes vale é que o Sr. Paulo tem um coração do tamanho do mundo e, apesar daquela cara, nunca lhes conseguir dizer que não. Só tenho pena de que quando chegar à idade do Sr. Manuel, o Sr. Paulo seja já também um Sr. Manuel, tal como eu...

9-9-2023

sexta-feira, 6 de março de 2026

Manual do Funeral

Quando ir ou não ir a um funeral é uma questão social de bastante pertinência, já que morrer faz parte da vida, como dizia o outro. E à medida que nos vamos aproximando desse evento único, um número maior de pessoas nossas conhecidas o vão encontrando antes de nós. Em geral os que são mais velhos do que nós, embora muito frequentemente, nem sempre. Se o ente nos é muito querido a questão é diferente, mas quando não, trata-se de fazermos o quê? É para responder a esta questão que se elabora este manual.

Em primeiro lugar para prestar uma homenagem à pessoa que partiu, se achamos que essa pessoa o merece, claro. É muito triste quando só aparece meia dúzia de pessoas num funeral. Percebe-se o quão humilde ou insignificante ela foi e o quanto passou despercebida por estas paragens. Esta consciência permite-nos compreender, de uma forma rápida, se devemos ou não comparecer às exéquias.

Há depois a compaixão para com aqueles que estão em sofrimento por terem perdido alguém que lhes foi querido ou muito querido, com os quais, dependendo do nosso grau de amizade, consideração, parentesco ou outro, temos obrigação de amparar, consolar, mostrar a nossa solidariedade e presença, que podem contar connosco, que ainda cá estamos para lhes dar alegrias mesmo sabendo que não podemos substituir quem se foi. Estas são as razões fundamentais e genuínas.

A questão religiosa acaba por ser de menor importância quanto a mim, pois a oração pode ser feita em qualquer lugar não sendo obrigatório que seja feita à vista de todos e depende da fé de cada um, que nestas ocasiões tem tendência a ser sempre mais fervorosa.

Quanto às razões de interesse próprio, que têm uma importância maior ou menor consoante o carácter do próprio, e sobre as quais não me vou alongar muito, são muitas. Convém sempre que sejam devidamente camufladas para dar a entender que foi um dos motivos nobres que nos moveu. Podemos estar interessados em agradar a algum superior hierárquico, ou em não ser apontado por ninguém ou até mesmo em ver se nos calha alguma coisa em herança. Enfim, há uma série de vantagens que se podem obter com a nossa comparência e desvantagens com a nossa ausência, cabendo-nos ponderar bem o que fazer.

Independentemente da razão, a escolha da indumentária é sempre um fator importante. É uma arte que se vai aprimorando com o tempo e que necessita de algum tato e alguma experiência. Esta deve ser escolhida de forma a não ofender, em primeiro lugar, os entes queridos do defunto. Há sempre um risco de se pecar por excesso ou por defeito, cabendo a nós perspicazmente avaliar essa situação. Mas, como quer se queira quer não, se trata sempre de um evento social, devemos prever quem irá estar presente para decidirmos de que forma queremos ou não impressionar. Repare-se que tanto se impressiona pela positiva como pela negativa, pelo que devemos escolher, consoante o nosso objetivo, o tipo de roupa a envergar ou optar por uma sempre eficaz indumentária neutra.

Em relação à nossa postura, por respeito aos mais íntimos e aos que estão em maior sofrimento, devemos esforçarmo-nos por manter sempre uma expressão grave, um ar circunspecto, evitando risos e palavras audíveis a mais de dois metros. Cada vez mais se vai encontrando por esses funerais a fora, infelizmente, pessoas que perdem a compostura e se convencem de que estão numa festa de aniversário.

Deixo ainda uma última dica: se o defunto for bastante popular temos a nossa tarefa facilitada, bastando-nos marcar presença, cumprimentando os entes queridos e sair de fininho, imediatamente depois. Nestes casos, no meio da confusão, ninguém vai perceber quanto tempo estivemos no evento ou dar pela nossa falta. A menos que, claro está, sejamos alguém que possa trazer vantagens a algum dos pesarosos presentes, o que em geral não é o caso.

9-2-2020

Os passageiros habitués

Há cinco anos mudei de emprego e voltei a utilizar os transportes públicos, coisa que já não fazia desde os tempos de estudante e que sempre...