sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

A máquina desgovernada

Antigamente dizia-se de uma máquina que se desgovernava, que tinha ganho vida própria. Hoje já temos máquinas com vida própria: os computadores. Apesar de terem sido criados por nós, assemelham-se, em parte, à criação Divina. Tal como a semente que se lança à terra, brota e cresce sem sabermos como, ou como um de nós se forma dentro da barriga de outro, assim se está a desenvolver um novo ser que talvez já nem criação nossa o possamos chamar.

Receio o que uma inteligência muito superior à nossa possa vir a fazer. Que ideias passarão pela sua desmedida cabeça.

Temos a arrogante convicção de que a última palavra será nossa. De que está ao alcance de um clique desligarmos esta máquina. Por isso podemos deixá-la desenvolver-se até concluirmos que nos está a ser prejudicial. Nessa altura desligá-la-emos.

Será que vai ser assim? Não acredito. Com o ambiente está a acontecer o mesmo. Estamos a dar cabo dele. E seria relativamente fácil parar com a sua destruição. Veja-se o que aconteceu na pandemia. Não o fazemos porque isso implicaria diminuir o nosso conforto, impedir pessoas de trabalhar, gastar mais tempo nas deslocações, deixar empresas falir, passar fome. Vamos adiando o problema, empurrando-o com a barriga, até que venha a tornar-se insustentável. Mas, nessa altura, será tarde demais.

Com a IA vai acontecer o mesmo. Não vamos desligar o botão. Vamos esperar mais um bocadinho. Porque ela nos dá muito jeito. Mais tarde desligá-la-emos. Quando ela tomar conta de nós faremos isso. No entanto, o que vai acontecer é que não a iremos desligar. Ela vai tomar conta de nós com a nossa permissão. Ou melhor, por nossa imposição. Vamos subjugar-nos a ela como seus escravos. Tal e qual como nos acontece perante as redes sociais.

Não sei quantos anos vamos sobreviver a isto. Talvez até se resolva o problema ambiental com recurso à IA. E talvez esta venha a ser esperta o suficiente para fazer com que, para não terminar consigo, arranje forma de não terminar com a Humanidade.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O meu comboio

 Hoje vou para casa de comboio. O meu meio de transporte, desde criança até me tornar adulto, é hoje estranho para mim. Antes sentia-me do comboio. E o comboio era meu. Sentia-me em casa, conhecia-lhe todos os cantos, barulhos e até as pessoas eram quase todas as mesmas. O comboio não podia ser menos estranho para mim. Hoje não. Sinto-me como alguém que regressa à sua terra depois de muitos anos de ausência.

  Sento-me numa cadeira do lado direito, junto à janela. Atrás de um rapaz esparramado, que besunta o seu telemóvel. Estou na parte de trás da carruagem, virado para a frente, de modo a poder observar tudo o que se passa. Faltam dez minutos para o comboio partir. A intensidade da luz no interior contrasta com a escuridão do exterior. A carruagem está muito diferente e a sua imagem multiplica-se nos reflexos de todos os vidros. As janelas já não se podem abrir e estão mais escuras tornando-se difícil perceber o exterior. Aproveito para ver se tenho mensagens e responder a uma.

  Atrás de mim uma voz de miúda fala ao telefone. Fala um pouco alto, não se importando com a presença de outros. E usa termos diferentes. “estás a ver, meu?”; “sim, e então?”; “dâ_âââ”. Fala com um amigo e vou seguindo a conversa. A curiosidade leva-me a olhar para o reflexo da miúda na janela oposta e vejo que de miúda não tem nada. Deve andar na casa dos quarenta, mas o seu léxico está perfeitamente actualizado. Talvez ande de comboio todos os dias.

  O comboio finalmente arranca. Sinto-me satisfeito ao constatar que o pcheeee do fecho das portas é exactamente o mesmo e regresso um pouco ao passado. O som das rodas a rebolar nos carris também é o mesmo. Do outro lado vão dois jovens, estudantes universitários talvez, a conversar. E, á frente deles, ou atrás, já que do outro lado vão todos de costas para o destino, um menos jovem aproveita para dormir. Vê-se que é um habitué. Também eu conseguia dormir assim, com a cabeça em pé, abrindo o olho de quando em vez para ver onde estava e para constatar que não me estava a babar. Hoje não conseguiria dormir com aquela paz. Sinto-me como se fosse ter um teste, mas sem ter teste nenhum para fazer.

  Mais à frente, ainda do outro lado, vai uma senhora, na casa dos cinquenta. Está com um ar angustiado e aperta a carteira de napa, cor de cabedal, com as mãos limpas de anéis. Os olhos estão avermelhados e pousa-os algures muito longe daqui. Deve regressar a casa depois de um dia de trabalho. De apenas mais um dia de trabalho, esperando apenas que este rito dê origem ao seguinte. Pergunto-me se terá alguém em casa à sua espera. 

Ao seu lado viaja outra senhora, que mal consigo ver a cara, que está baixa, em posição de ver o telemóvel, e que nem se apercebe da solidão que viaja com ela.

  Do meu lado, lá à frente, naqueles bancos de 4 frente a frente, virado para mim, segue um rapaz, de certeza estudante universitário, com um ar bem disposto a escrever no seu portátil. Não parece estar a comunicar com alguém. Talvez esteja a fazer um trabalho.

  Numa estação, que não consigo perceber qual, entra uma senhora que se senta ao meu lado. Não é nova, mas também já aprendeu a não se desgrudar do telemóvel. Percebo que escreve mensagens e vai assim o tempo todo.

Publicado no Sapoblogs a 31-3-2015

Os passageiros habitués

Há cinco anos mudei de emprego e voltei a utilizar os transportes públicos, coisa que já não fazia desde os tempos de estudante e que sempre...